Cartinha Eletrônica:
A.,
hoje vivemos uma aventura policial-sem-polícia aqui na casa da minha mãe.
De manhã, ela e B. saíram de casa e deixaram o portão lateral interno aberto, trancando apenas o portão que dá para a rua. Quando retornaram, por volta das 11:30, viram que a bicicleta de asfalto do B. (a mais cara, coisa de no mínimo R$3.000,00) e o capacete haviam sumido.
Enquanto isso eu, do meu apartamento, ouvia a Catarina latir escandalosamente sem desconfiar de nada. Pensei que era chilique canino. Mas não dava para exigir de uma labradora gulosa mais que latidos. Ainda mais quando o ladrão a seduz com arroz e pedaços de frango (havia restos junto ao portão)...
Depois do almoço, passada a revolta e o susto inicial, sugeri ao B. que perguntássemos aos vizinhos se haviam visto algum suspeito pela rua hoje, pois o cara devia ter pedido a comida em alguma casa. Dito e feito: dois vizinhos disseram que um habituê/mendigo havia passado tocando campainha nas casas de manhã. O cara é conhecido como Cerezo e mora na favelinha que fica a uns 2km daqui.
Sabendo que a polícia limitar-se-ia a lavrar uma ocorrência, resolvemos investigar por nossa conta, in loco, antes de ir ao batalhão da PM.
Fomos no carro do B. (o meu chamaria atenção demais) até a rua vizinha da favela, onde há um bar. Lá, abordamos dois rapazes que tomavam uma cerveja e contamos a estória, complementando que estávamos dispostos a pagar R$300,00 por uma informação que nos levasse até a bike. Os rapazes disseram não conhecer nenhum Cerezo, mas que havia por lá um tal de Ivan (parece que é o mesmo cara, Cerezo seria apelido) que costuma praticar esse tipo de furto. Disseram que iriam procurar saber lá na favela e que já voltavam.
Enquanto isso, eu e meu irmão ficamos no bar, e pedimos uma cerveja, já que só nos restava relaxar.
Pouco depois os rapazes voltaram informando que o cara não estava em casa, mas a mãe dele disse que ele havia aparecido hoje com uma bike. O jeito era entrar na favela para checar...
Rezei uma Ave-Maria em silêncio e seguimos atrás dos caras. Depois de atravessar a favela (trajeto curto, graças a Deus!) chegamos à casa. A dona estava na porta, com uma cara de apavorada, segurando a bicicleta e o capacete. Ela pediu mil desculpas pelo ato do filho, disse que ele é um bêbado que vive aprontando e que estava rezando para achar o dono da bicicleta e poder devolvê-la.
Eu agradeci demais à senhora e aos rapazes - com direito a abraço e beijinho no rosto (B. até ficou meio abestalhado, meio sem ação), entreguei a ela R$100,00 e a eles R$130,00, tudo que eu tinha comigo. Disse que eles podiam vir em casa depois para buscar a diferença mas eles não quiseram, disseram que aquele dinheiro já estava bom demais e que, na verdade, nem precisariam de recompensa para nos ajudar.
Minha irmã disse que eu não devia ter dado nada à mãe do ladrão, que eu acabei por recompensá-lo indiretamente, mas eu senti honestidade na aflição e na vergonha dela. Fiquei com pena. Acho que foi um bom investimento.
Agora, portãozinho aberto nunca mais, nem durante saidinhas rápidas. E dá-lhe cerca elétrica!
Beijos,
R.
Escrito por Rosa às 20h41
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